AS PRIMEIRAS LETRAS

 



O Sol com seus braços de raios luminosos,
matou a escuridão de dantes.
Trouxe vida ao Pampa
que se levanta com cor.
Mas, antes do dia clarear
o piazito já havia levantado.
O seu petiço encilhado,
esperava na frente do rancho
humilde do corredor.
Um lápis de ponta grossa,
um cadernito de promoção
e a beleza em sua mão
de mais um botão de flor.

Pela estrada de chão batido,
com imensa empolgação
assobiava uma canção,
no mesmo compasso
do marcar de cascos
de seu petiço amigo.

Era o primeiro dia de aula
e se permitia sonhar
que aprenderia a escolher
as letras do ABC,
poderia escrever
um chasque
e mandar à prendinha seu bem querer.

Chegou em frente da porta,
não conteve a emoção.
Seus olhinhos brilhavam com tal intensidade,
semelhante a luminosidade
que clareia a escuridão.
Sua mãozinha pequena
porteava o botão de flor,
para a professora presentear.
Em seu primeiro dia de escola,
um lápis de ponta grossa
e um cadernito na sacola.

Passou-se um dia,
mais outro.
Muitos dias,
muito tempo.
E, cada vez que em casa chegava,
o piazito mostrava
o que tinha aprendido.
Sabia acolherar as letras,
fazer conta de mais
e de menos
e aquele olhar sereno
com réstias de piá sabido,
era a prova do aproveitamento,
do mais puro ensinamento
na escola recebido.

Os anos moldaram o tempo
e lhe deram formação.
O rancho, não é mais rancho do corredor.
O petiço só existe na saudade.
E o corpo franzino do piá
é o homem da realidade.
O lápis de ponta grossa
e o cadernito usado,
são recuerdos do passado,
que por vez volteia a lembrança
daquele olhar criança,
no homem já formado.

De melena branca, a professora.
Face enrugada pelo tempo
e a oscilação do pensamento
desenvolve fatos de seu passado.
Ainda sente o perfume
de tantas flores recebidas,
que energizavam a vida
do seu dom de ensinar.
Ainda recorda o brilho do olhar
naquele piazito aprendiz.
Cerra os olhos feliz
querendo ao tempo regressar.

Eis que, de repente,
foi parando em sua frete aquele homem alto.
De gravata e terno engomado.
O mesmo brilho no olhar.

Pela imponência do automóvel
o petiço foi trocado.
O lápis de ponta grossa por uma caneta prateada.
E o cadernito de promoção por uma agenda lotada.

As mãos eram as mesmas,
um pouco maiores no formato,
mas carinhosas e agradecidas.
Na cadeira de balanço, a melena branca.
Um perfume...
Aquele aroma lhe invade a memória,
volta ao tempo, na história.

Dos olhos nascem vertentes,
são as lágrimas do presente.
E o guri é o homem de agora,
que a afaga nesta hora
ajoelhado à sua frente.
Em suas mãos se encontram o passado,
em seu sorriso ternura e gratidão.
E o ambiente se envolve
no perfume do botão.
Um abraço com carinho,
com muito mais amor
para expressar seu sentir:
“Muito obrigado, professora,
quero ofertar-lhe uma flor,
pois se hoje estou aqui,
foi por que muito aprendi
com sua dedicação
e em minha formação
me tornei mais um doutor.”

Ruben Alves Vieira

 

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