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PELAS RUAS DA
CIDADE
Me dá uma moedinha, Óh tio! Um leve tremor de frio, Pés descalços na calçada, Roupa suja esfarrapada, Olhos ariscos, ligeiros Acostumados com entreveiros Da cidade agitada. Se boleava pelo chão Como corcoveio de potro. Chamando a atenção do outro E mais outro que passava. De vez em quando ganhava Um resto de salgadinho, Um doce e até um trocadinho Que na gibeira guardava. Mal havia repontado o sol E o piazito ia chegando. Pelas ruas se formando O alvoroço de gente De maleta, imponente, De gravata e terno engomado. Cada um para o seu lado E o piazito, sem lado pela frente. No rosto as marcas de ontem. Nos olhos o brilho da esperança, Que existe no coração da criança Que vive no mundo de fantasia. E até sente alguma alegria Que motiva o seu viver, Mesmo que passe a sofrer Uma certa judiaria. E assim se passa o dia Entre uma e outra moedinha. Se mistura com sua turminha Pelos grandes ignorados, Que vão passando pelos lados Em busca de seus destinos, Enquanto o guri teatino Nem destino tem traçado. Vai pra casa ao final da tarde Quando o sol descamba na cidade. Em sua simplicidade, Pelas ruas chuta uma latinha. Já é bem de tardezinha Toma conta a escuridão, Com umas moedas à mão Segue o rumo de sua casinha. E o pai, na espera ansioso. Não pelo guri, seu filho querido, Mas, pelo que teria conseguido Lá no centro da cidade, Porque ele na verdade Passou o dia bebendo E só estava querendo Beber de novo à vontade. “Só isto que conseguiu?” E foi desafivelando a cinta. “Olhe pra mim e não minta, pois, vou te dar uma lição não me venha abanando a mão seu piá preguiçoso e arteiro, amanhã eu quero dinheiro, vá pedir, pois não tem perdão.” Aqueles olhos ariscos Se amedrontaram na hora. E as lágrimas de quem chora Molharam a face da criança. Tamanha era a arrogância De um pai sem coração, Que batia sem compaixão Apagando a luz da infância. Chorou num canto esquecido Até que o pranto o cansou. Dormiu e até sonhou Que tinha um rumo na vida, Uma família querida, Não andava de pé no chão, Ia pra escola aprender a lição, Tinha de sobra comida. Mas, chegou o sol Pra acabar com seu sonhar. Entre berros teve de levantar, Pois, seu pai assim queria E enfrentar um novo dia Pedinchando por dinheiro, Que o destino traiçoeiro Lhe deixou pra companhia. Logo ao sair do rancho Viu uma luz bem reluzente. E parou em sua frente Com olhar lindo e franco, Uma moça toda de branco Que para o guri sorria. Seu coração se encheu de alegria, De paz e muito encanto. A luz aos poucos foi se apagando E a moça foi embora. Seguiu rumo sem demora Pra cumprir com a obrigação. Esfarrapado pé no chão Pela calçada subiu, Pedindo esmola pro tio, Roendo alguma sobra de pão. Lembrava da promessa do pai E da surra que levou. Revirou a gibeira achou Duas ou três moedinhas, Era tudo o que ele tinha Mais não conseguir ganhar, Teve medo de apanhar Quando chegasse a noitinha. Mas, ao atravessar a avenida Bem no centro da cidade, Um carro em alta velocidade O gurizito atropelou. E seu corpinho ficou Na sarjeta esquecido E nem um vivente comovido Naquela hora parou. Os olhos tinham o brilho Da mesma luz incandescente, Que fez a manhã reluzente Com divina companhia. E o piazito ainda sorria Mesmo inerte sem vida, Com uma moeda esquecida Em sua mãozinha já fria Ruben Alves Vieira
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