NO REMANSO DAS ÁGUAS
 

Bate os cascos um por um
marcando o chão,
como o desenho do pintor.
E o som que percorre a estrada,
parece a melodia afinada de um cantor.
A poeira que se levanta,
é uma bandeira feita de terra,
com o pampa na cor.
A baba que lambuza o freio e o buçal,
do cansaço é vestígio e sinal,
pois foi longa a tropeada
até chegar a parada
pro descanso do animal.

Veio de longe cortando o campo,
no lombo do flete marchador,
sentindo a brisa do vento
acariciar sua face até enxugar seu suor.
Na idéia povoam recuerdos
e sonhos com a prenda de dantes,
que  ficou na memória gravada
pelo afago e carinho,
que ainda sente neste instante.

O sol vai se pondo lentamente
por detrás da coxilha esverdeada,
cor natural do pampa
que aos olhos encanta,
numa paisagem bem desenhada
pelas mãos do Criador.
E antes do lusco-fusco chegar
pra tomar conta do entardecer,
ainda tem que parar
para este zaino beber.

Suavemente vêm vindo
as águas da sanga,
trazendo de longe
e levando pra diante
o gosto doce da pitanga.
Fazendo sinfonia com sua canção,
acaricia as pedras
como uma amante em volúpia,
de desejo e paixão.

As patas do pingo mergulham na sanga
e a goela clamando por água,
abranda a sede do corpo do animal.
Um par de olhos que brilham,
contemplam a cena naquele ambiente
harmonioso e natural.
À beira da sanga,
uma pitangueira coalhada de frutos,
mais adiante um carreador
que corta o matagal.

Mesclado ao cheiro de mato,
lhe invade as narinas
o perfume de flor.
O peito bate mais forte
trazendo de volta a imagem da prenda,
num misto de afago e amor.
Apeia do pingo e procura
a origem do perfume,
antes que se vá o lume
do resto de sol, reluzente esplendor.

E no remanso das águas
como a esperar por alguém,
emana o perfume das pétalas aveludadas
de uma rosa em flor...
Carinhosamente
Ruben Alves Vieira
 
 
 

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